domingo, 23 de novembro de 2008

MULHERES DO CORTIÇO: SÍMBOLO DE OBEDIÊNCIA, SENSUALISMO E AUTONOMIA

Amparo
Jeane


Resumo: Para o presente artigo, foram analisadas três personagens femininas em “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, sendo Bertoleza, Rita Baiana e Leonie, buscando nelas a identificação e a representação da mulher no século XIX e seu estado de sensualismo, obediência e prostituição na obra.
Palavras-chave: sensualismo, obediência, prostituição, O Cortiço.


Introdução

A mulher, durante muitos anos, foi vista como um ser frágil, e suas maiores conquistas estavam relacionadas aos afazeres domésticos. Não participava da vida política, estava sujeita à tutela do pai, do irmão e depois do marido. A vida da mulher era marcada pelo “não”.

Quando mulher e homem se casavam, tornavam-se um, e este um era o homem. A mulher passava a ser a sombra do esposo, o chefe da casa. Cabia à mulher ser esposa, mãe, a rainha do lar. Não decidia nada, nem mesmo sobre a educação dos filhos. A mulher era totalmente excluída e submissa aos valores da sociedade, fundamentada na diferença, essa é uma realidade do século XIX.

Os textos naturalistas acabam por tocar em temas até então proibidos, como o homossexualismo feminino, característica presente em uma das personagens abordadas na obra. E era vista com uma Literatura “imoral”, em face dos preconceitos provincianos.

De início, abordaremos a imagem da figura feminina que a história tradicionalmente nos mostra, beleza: a mulher dócil, mulher vegetal, personagem negra, ingênua, sofre influência do meio, é fiel a João Romão, o que percebe-se no trecho:


Bertoleza representava ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. (AZEVEDO, 1995, p. 18)



Segundo Coutinho (2002, p. 12), “Bertoleza como o seu comportamento de mulher obediente, submissa, apresentada no Naturalismo, e o interesse do autor defender a teoria do determinismo, o homem é um animal, presa de forças fatais e superiores”.

Rita Baiana é a representação da sensualidade brasileira. Seu jeito alegre, com atitudes tomadas pelo impulso do que pela razão e sua total falta de responsabilidade são traços marcantes de sua conduta. Ela é a síntese de uma raça brasileira delineada no romance. Muito amiga e popular, ela conquistava a todos, desde suas amigas no trabalho, como as crianças e os homens em geral.
Jerônimo sente fortemente atraído por ela, como no episodio em que este a presencia alcançando, tendo a conclusão que:


Nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro deles aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas que lhe iam devorar o coração. (AZEVEDO, 1995, p. 92)




Rita Baiana é uma mulata independente diferentemente de Bertoleza, que era a mulher que não tinha liberdade de escolha, era submissa, ao contrário de Rita, que era uma mulher expansiva e liberada, recusando-se por isso o casamento.


Casar? Protestou Rita. Nessa não cai a filha de um pai. Casar? Livra! Pra quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu. (AZEVEDO, 1995, p. 95)


Podemos perceber na obra “O Cortiço” uma personagem diferente das outras que foram citadas, uma figura que vai além dos costumes da mulher do século XIX: Léoie, prostituta de luxo e madrinha de duas garotas do cortiço, Pombinha e Juju, que moravam com ela. Representava, para as mulheres pobres do cortiço, o símbolo de autonomia financeira feminina da época. Percebemos bem essa característica no seguinte trecho da obra: “Léoie, com suas roupas exageradas e barulhentas de cocote à francesa, levantando rumor quando lá ia e punha expressões de assombro em todas as caras”. (AZEVEDO, 1995, p. 119).

A personagem Léoie, com essa autonomia financeira que causara aos moradores do cortiço, acabou por influenciar as afilhadas, agradando-lhe com roupas, calçados e fazendo com que as mesmas tivessem os mesmos interesses que ela em ser uma prostituta de luxo.

Léoie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o capricho ao ponto de cortar a roupa da mesma fazenda com que fazia as suas e pela mesma costureira: “Arranjava-lhe chapéus escandalosos como os dela e dava-lhe jóias”.


Conclusão

O cortiço é uma obra que retrata alguns dos problemas sociais que enfrentamos hoje na sociedade como: traições, violências sexuais, relacionamentos lésbicos, entre outros. Sua leitura é agradável, pois é de grande relevância para a história da Literatura, levando-nos a analisar a sociedade em que estamos inseridos.


Bibliografia

AZEVEDO, Aluizio. O Cortiço. 28 ed. São Paulo: Ática, 1995.

COUTINHO, Afrânio.
Era realista, era de transição IN: A Literatura do Brasil. 5 ed. Global, 1999.

Revista mundo jovem, n 324, março de 2002, p. 09.

SANT´ANA. Afonso.
Análise estrutural de Romances brasileiros. Vozes, 7 ed.

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